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domingo, 29 de abril de 2007

Discípulos e missionários

A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe terá lugar em Aparecida (170km de São Paulo – Brasil), junto ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, de 13 a 31 de maio de 2007.

O tema oficial da V Conferência, apontado pelo Papa Bento XVI, é Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele nossos povos tenham vida – “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Segundo o Documento de Participação da Conferência de Aparecida, distribuído às Igrejas locais para que dessem suas contribuições, o encontro com Jesus Cristo é a raiz e o ápice da vida da Igreja e o fundamento do discipulado e da missão.

“A V Conferência nos oferece uma nova oportunidade para refletir sobre a profundidade de nosso encontro com Jesus Cristo vivo; e para perguntar em nossas comunidades a respeito da transformação de nossa vida que o Espírito do Senhor realizou em nós pelo encontro com Jesus, a respeito da coerência de nossa identidade católica e da autenticidade de nossa vida cristã, e a respeito da intensidade de nosso ardor missionário, examinando se anunciamos e damos testemunho daquele que é o Caminho e a Vida para aqueles que estão distantes dele ou ainda não o conhecem, embora o busquem.” [59]

O cardeal Cláudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, em um livro intitulado “Discípulos e missionários de Jesus Cristo” [60], explica que a atitude fundamental do discípulo é ouvir. «Sentar-se diante do Mestre e ouvir, como que extasiado. Ouvir de coração aberto. Sem barreiras, deixar-se invadir pelas palavras do Mestre». [61]

Segundo o prefeito da Congregação para o Clero, nós somos discípulos de Jesus desde o nosso batismo. «Fomos levados à pia batismal, quase todos ainda na fase de crianças recém-nascidas. Ali tornamo-nos filhos de Deus e discípulos de Cristo. Começamos a ouvir falar dele, ainda nos joelhos de nossos pais. Num daqueles dias da nossa primeira infância, nossa mãe ou nosso pai nos mostrou o crucifixo da casa e disse: “Este é Jesus”. Foi um momento extraordinário em que pela primeira vez fomos apresentados pessoalmente a Ele». [62]

«Portanto --afirma o cardeal--, para sermos missionários e missionárias, hoje, será importante reavivar em nós o ser discípulo de Jesus. Isso significa sentar-nos diante dele e ouvi-lo. Deixar-nos encantar por Ele. Abrir-nos e deixar-nos invadir por Ele. Ouvi-lo como se fosse a primeira vez que temos a felicidade de estar com Ele e ouvi-lo. Deixar que o estupor e o assombro pela sua pessoa, suas palavras e atitudes inundem nosso coração. Deixar-nos envolver de novo pessoalmente com Ele e com seu projeto de salvação do mundo. Isso significará que, ouvindo a Jesus Cristo, teremos de ouvir também com Ele a realidade humana, os seres humanos e todos os seus dramas, sofrimentos, esperanças e aspirações». [63]

Já o secretário-geral da V Conferência, Dom Andrés Stanovnik, O.F.M. Cap., bispo de Reconquista (Argentina) e secretário-geral do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), falou em entrevista exclusiva a Zenit sobre o tema da Conferência de Aparecida.

«A dinâmica das relações entre as pessoas responde a aspectos profundos da natureza humana. Jesus Cristo, ao assumi-la e redimi-la, outorgou-lhe beleza e transcendência. O autêntico encontro humano leva sempre à abertura e à missão. Por isso, o discípulo que se encontra com Jesus Cristo se transforma em discípulo missionário. Não pode existir um autêntico discípulo que não seja missionário, como tampouco pode o ser humano amadurecer se não se abre aos demais. O crente experimenta que sua condição humana se transforma e enriquece pelo encontro com Jesus Cristo vivo. O tema de Aparecida é um convite a viver a experiência desse encontro e abrir-se à missão», afirmou o bispo. [64]

Segundo Dom Andrés Stanovnik, «o Santo Padre Bento XVI nos entregou o tema da V Conferência, e a primeira parte do tema diz: ‘Discípulos e missionários de Jesus Cristo’. É um forte chamado às Igrejas que peregrinam pela América Latina e pelo Caribe a encontrarem-se mais intensamente com Jesus Cristo. A Igreja, esposa de Cristo, está chamada, através do acontecimento da V Conferência, a encontrar-se mais com Ele». [65]

«Nesse sentido --destaca o secretário-geral da V Conferência--, o encontro de Aparecida é um novo impulso do Espírito Santo à Igreja, para que se encontre mais com seu Senhor e, transformada por Ele, seja mais missionária. A Igreja não pode ser missionária se não é discípula, se não renova constantemente a atitude de colocar-se como discípula diante de seu Senhor e Mestre. Para que os discípulos e discípulas sejam verdadeiros missionários, devem voltar sempre aos pés do Mestre, para estar com Ele, aprender dele, e entrar em profunda amizade e comunhão de vida com Ele.» [66]

«A missão se destaca na frase seguinte do tema de Aparecida: ‘para que n’ Ele nossos povos tenham vida’. Esta frase expressa a finalidade da Igreja: ela existe para a missão. Por isso, todo discípulo e discípula na Igreja está chamado a ser missionário. Daí também surge o motivo que reúne aos bispos na V Conferência, é a evangelização do continente em tempo atual», explicou o bispo. [67]


O hino "Bem-vindo o que vem em nome do Senhor", composto especialmente para homenagear o pontífice, será cantado pelo coral de mil vozes.

A música foi composta pelo frei Luiz Sebastião Turra, pároco da igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, com base na primeira carta de Bento XVI após ter sido nomeado Papa, cujo tema é Deus é amor.

O hino está sendo apresentado nas missas celebradas no Santuário Nacional de Aparecida e nas paróquias de todo o Brasil.

(Terra)

sábado, 28 de abril de 2007

A Conferência de Aparecida

Padre Almir Magalhães
28/04/2007


Em maio próximo, ocorrerá a V Conferência Geral do Episcopado da América
Latina e do Caribe na cidade de Aparecida (SP), que contará em sua
abertura com a presença do papa Bento XVI, que faz assim sua primeira
visita ao Brasil. O tema da Conferência em tela é "Discípulos e
missionários de Jesus Cristo para que nele nossos povos tenham vida".

O objetivo desta reflexão é expor o que se espera desta
Conferência; elencarei duas expectativas porque julgo como centrais
para o nosso contexto.

Vamos tomar como ponto de referência para esta contribuição o
documento de participação (DP), publicado conjuntamente pelo Celam,
CNBB, Paulus e Paulinas, do ano de 2005, que serviu de fonte para as
contribuições das várias Conferências Episcopais Nacionais, emergindo
daí o Instrumento de Trabalho que será utilizado durante a Conferência.

Como primeira expectativa, faço alusão ao nº 41, do DP, que afirma:
"Na Exortação Apostólica Ecclesia in América, o papa João Paulo II nos
mostrou que 'o encontro com Jesus Cristo vivo' é o ponto de partida de
toda ação pastoral. No hoje de nossa América, ele ilumina nossa vida e
todo o trabalho evangelizador. É assim que a preparação para a V
Conferência Geral é uma ocasião propícia para fazer um profundo
discernimento a respeito da qualidade de nossa vida, das celebrações
litúrgicas, do trabalho catequético, da ação social e solidária,
perguntando-nos se elas levam ao encontro vivo com Jesus, se o
celebram, se o prolongam e se o anunciam aos que estão longe dele ou
não o conhecem" (os grifos são meus).

A segunda expectativa decorre de uma orientação contida no
Documento Conciliar sobre a Igreja (Lumen Gentium, nº 8b) que diz:
"Assim como Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na
perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho a fim de
comunicar aos homens os frutos da salvação... Cristo por nossa causa
'fez-se pobre embora fosse rico' (2 Cor 8,9): da mesma maneira a
Igreja, embora necessite dos bens humanos para executar sua missão, não
foi instituída para buscar a glória terrestre, mas para proclamar,
também pelo seu próprio exemplo, a humildade e a abnegação".

Tenho a impressão de que a qualidade de vida do povo da América
Latina e do Caribe não expressa a dignidade que mereça o título de ser
"imagem e semelhança de Deus". Todos já conhecem qual a realidade deste
povo alegre e sofrido e quanto bem se fará a este povo se a Igreja
acentuar a sua presença pública na defesa da vida.

Decorrente desta opção, do posicionamento da Igreja em todos os
níveis: Institucional, da Igreja que se constrói na base, das
Paróquias, das Áreas Pastorais emergirá esta identidade que Lumen
Gentium faz referência, ou seja, uma Igreja que é perseguida porque
profética, uma Igreja pobre porque radicaliza a sua fidelidade ao
Evangelho e que também é um patrimônio da Igreja primitiva.

Neste sentido é bom lembrar aqui a mais radical tradição da Igreja
(como modelo eclesiológico se deu a partir da Igreja primitiva) que, na
fidelidade ao Evangelho, foi-se construindo na perseguição. Isto nos
confirma o livro dos Atos dos Apóstolos. Entre algumas de suas
citações, que poderiam ser muitas e que aparecem, sobretudo neste
período imediato ao domingo da ressurreição, cito At. 4,
16-17;23-24;29: "O que vamos fazer com esses homens? Eles realizaram um
milagre claríssimo e o fato tornou-se de tal modo conhecido por todos
os habitantes de Jerusalém, que não podemos negá-lo. (...) Contudo, a
fim de que a coisa não se espalhe ainda mais entre o povo, vamos
ameaçá-los para que não falem mais a ninguém a respeito do nome de
Jesus". "Logo que foram postos em liberdade, Pedro e João voltaram para
junto dos irmãos e contaram tudo o que os sumos sacerdotes e os anciãos
haviam dito. (...) Ao ouvirem o relato, todos eles elevaram a voz a
Deus dizendo: Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem e concede que os
teus servos anunciem corajosamente a tua palavra".

A dedução lógica, textual e histórica comprova que os cristãos da
primeira hora incomodaram e, por isso, sofreram ameaças e perseguições.
Será este um critério que deve ser concretizado em todas as épocas? É
evidente que tudo isto se faz dentro de um espírito evangélico, com
base no diálogo, com determinação, com a liberdade de quem se sente à
vontade para defender aqueles e aquelas que se calam ou são
silenciados.

Feliz Páscoa!

PADRE ALMIR MAGALHÃES é sacerdote da arquidiocese de
Fortaleza, reitor do Seminário Arquidiocesano São José - Filosofia, e
mestre em Missiologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.